ALMAS MORTAS (1964)


Eu sempre quis ver esse filme. Almas Mortas título original Strait-Jacket foi lançado em 1964, dirigido por William Castle e estrelado por Joan Crawford, Diane Baker, Leif Erickson e Howard St. John. Infelizmente, esse título no Brasil é completamente sem nexo, a tradução literal do título seria “Camisa-de-Força”, e soaria muito melhor para o que este clássico retrata. 

O filme conta sobre uma mulher chamada Lucy, que volta de viagem antes da hora prevista e encontra o marido junto com a amante, em sua própria cama. Diante dessa situação, ela perde o controle e mata os dois a golpes de machado, sem se dar conta de que sua filha pequena estava presenciando tudo. Esse acontecimento ocorre no prólogo, e é claro que foi uma grande façanha apresentar ao espectador essas cenas chocantes. Depois disso, a mulher é internada em um hospício, já que foi dada como louca e assim não permaneceu presa por duplo homicídio.


Vinte anos depois, ela é liberada pelos médicos e vai morar com seu irmão, a esposa dele e sua filha já crescida. Tudo parecia normal, mas aos poucos, Lucy demonstra não estar completamente recuperada de todo o trauma que passou. E com isso, ela sente dificuldade em reaver os laços com a família, especialmente de sua filha Carol. No entanto, a situação complica quando novas vítimas surgem sendo assassinadas com um machado.

Esse filme é interessante do inicio ao fim. O clima de suspense é grande e a direção conduz habilmente cada detalhe. As atuações são dignas de elogios, em especial de Joan Crawford, que de fato, já era uma atriz brilhante na sua época. O desfecho do filme é surpreendente! No entanto, eu não fui totalmente convencido com o plot twist. Por quê?

ATENÇÃO! A PARTIR DAQUI TERÁ SPOILERS!

Diante de todos os assassinatos que ocorrem, dão margem clara de que são cometidos por Lucy, mas o final surpreende o público revelando que a verdadeira assassina é a filha de Lucy, Carol. O que a motivaria a cometer todos estes crimes? Bem, em primeiro instante, é enfatizado que Carol, após testemunhar sua mãe matando seu pai e a amante, tem deixado a garota traumatizada. No segundo instante, é revelado que o motivo de Carol cometer tais crimes é para que a culpa caia sobre sua mãe, já que ela é uma assassina. E por que ela faria isso? Carol queria eliminar os pais do namorado, que eram contra o casamento dos dois. E matando-os e posteriormente sua mãe levando a culpa, deixaria o caminho livre para ela se casar sem que nada a impedisse.


Esses eventos do filme são bem feitos? Sim. São bem escondidos pelo roteiro? Sim, e como hein. Mas, há algumas incoerências com o restante do enredo. E daí o motivo pelo qual eu não fiquei totalmente convencido com a reviravolta. E devo lembra-los que histórias com revelações surpreendentes faz parte do meu estilo favorito para filmes ou séries. No caso de Almas Mortas, o resultado foi parcialmente bom.

Durante o filme inteiro, Lucy demonstra claramente ainda estar com sequelas do evento que mudou sua vida. Tem uma cena em que ela conhece o namorado de Carol, Michael, onde ela se comporta de maneira incomum, se jogando em cima do jovem assim na maior cara dura e na frente da filha, que inclusive demonstrou estar incomodada com a situação, e o namorado dela nem se fala. E em outros momentos do filme, Lucy demonstrava claros indícios de delírio. O seu médico chegou a visita-la e percebeu que ter lhe dado alta não foi uma boa ideia. E esse médico foi uma das vítimas, e antes da visita, Lucy não queria vê-lo de jeito nenhum, enquanto que Carol não via problemas com a visita dele.


Mais adiante, Lucy é levada para conhecer os pais de Michael. Num determinado momento, Carol e o namorado juntamente com o irmão de Lucy e a esposa sai da sala de estar, deixando Lucy sozinha com os pais do jovem. Durante a conversa, Lucy menciona o casamento, sem se dar conta de que eles não sabiam dessa decisão, e que não aprovava ainda. Mas, Lucy chega a se exaltar assustando o casal que a vê como louca.

Agora, pegue todos esses eventos, e comparem com o desfecho. Lucy sai da casa e some por um breve momento, sua filha, os tios e o namorado saem em busca dela até chegarem, em casa. Lucy consegue despista-los e retorna para a casa de Michael onde tenta matar os pais dele. Durante a briga, surge outra Lucy no quarto e as duas começam a brigar. A que estava tentando matar é desmascarada e revela ser Carol. Como ela era artista, ela havia feito um rosto de sua mãe em uma estátua, mas o que ela queria era a máscara, até aí tudo bem. Carol passa a demonstrar sua verdadeira face: uma louca que queria matar para culpar sua mãe, a quem ela odiava durante esses vinte anos. E eventualmente, Carol é levada para o hospício.


Em uma das últimas cenas, Lucy é vista falando normalmente como se já estivesse recuperada. Sem estar nervosa ou em estado de alerta, tal como ela ficou o filme inteiro. Isso deu a entender o seguinte: Lucy não estava mais sendo afetada pelo trauma sofrido e os crimes não foram cometidos por ela e sim pela filha. Agora, pare e pense: durante o filme inteiro ela demonstrou ainda estar afetada pelo que aconteceu a ela, fazendo com que se comporte de maneira estranha, não querendo visitas do médico, agindo descontroladamente diante de pessoas estranhas, e tudo isso com sua filha ao lado tentando reativar o amor entre mãe e filha por meio da convivência entre ambas, daí eu indago: que coerência isso tem com o desfecho?

Eu li algumas análises na internet sobre o filme, mas o que vi foram apenas a reação surpresa que as pessoas tiveram. De fato, o filme surpreendeu muito! Mas, faltou caprichar na lógica, por que a ideia é muito bacana! Algumas pessoas tiveram a mesma visão que eu, ao passo que outras, se vangloriaram mais por causa do plot twist, porém, sem destacar os detalhes que mencionei aqui. Todavia, eu não estou querendo dar uma de sabe tudo, tampouco dizer que o filme é ruim. Muito pelo contrário, o filme é bom sim! Merece ser visto! E quanto a minha visão do enredo, estou aberto a bons argumentos que me convençam, acredito que isso ainda é possível, posso estar equivocado, já que muita gente incluindo críticos profissionais não levantaram questões a respeito da concordância do roteiro. 

NOTA: 7/10

Assista no vídeo abaixo o prólogo do filme, onde já começa mostrando a cena chocante do duplo homicídio. 

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