Depois do desfecho trágico de Alien 3, a franquia retornou quatro anos mais tarde com Alien: A Ressurreição, dirigido por Jean-Pierre Jeunet. O resultado é um capítulo que rompe radicalmente com o tom sombrio do anterior e assume uma estética mais estilizada, grotesca e até irônica — uma guinada que divide opiniões até hoje.
A trama se passa 200 anos após os eventos de Alien 3. Cientistas militares clonam Ellen Ripley para extrair o embrião da criatura que ela carregava. No entanto, o experimento produz algo inesperado: uma Ripley geneticamente mesclada com o xenomorfo, mais forte, mais ácida — literalmente e emocionalmente — e estranhamente deslocada da própria humanidade.
Desde o início, percebe-se a marca autoral de Jeunet. Conhecido por sua sensibilidade visual peculiar, o diretor imprime uma atmosfera quase barroca ao filme: cenários úmidos, iluminação esverdeada, enquadramentos excêntricos e personagens caricatos. Diferente da tensão minimalista do original ou do militarismo intenso de Aliens, aqui há um tom quase operístico, por vezes flertando com o humor ácido.
A Ripley desta fase é talvez a mais complexa da saga. Sigourney Weaver entrega uma performance carregada de ambiguidade: sua personagem não é mais apenas vítima ou heroína, mas uma figura híbrida que observa os humanos com certo desprezo — e os monstros com inquietante familiaridade. Essa inversão moral é um dos aspectos mais interessantes do filme.
No entanto, o roteiro oscila entre momentos inventivos e decisões questionáveis. A introdução da criatura híbrida final — o chamado “Newborn” — é conceitualmente ousada, mas visualmente controversa. A sequência provoca desconforto não apenas pelo horror físico, mas pelo subtexto quase trágico da relação entre mãe e filho distorcida geneticamente.
A ação é mais estilizada e menos tensa do que nos filmes anteriores, privilegiando cenas coreografadas e efeitos visuais típicos do final dos anos 1990. Embora algumas sequências — como a perseguição subaquática — sejam tecnicamente impressionantes, o suspense psicológico cede espaço ao espetáculo visual.
Alien: A Ressurreição é o capítulo mais excêntrico da franquia. Não possui a sobriedade filosófica de Alien 3, nem a coesão dramática dos dois primeiros filmes, mas compensa com ousadia estética e uma abordagem quase pós-moderna do mito do xenomorfo. Para alguns, trata-se de um desvio excessivo; para outros, é uma experiência estranha e fascinante.
Irregular, estilizado e perturbador, o filme encerra a trajetória clássica de Ripley de maneira ambígua — não com redenção, mas com transformação. E talvez essa seja sua maior virtude: aceitar que, em um universo tão hostil, nem mesmo a identidade permanece intacta.
NOTA 7:10




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