V/H/S/94 é o quarto filme da franquia V/H/S, lançado em 2021, e aposta novamente no formato de antologia para apresentar diferentes histórias de terror por meio de gravações encontradas. Ambientado em 1994, o longa reúne cinco segmentos que exploram o sobrenatural, criaturas grotescas, experiências científicas perturbadoras e situações extremas de violência. O resultado é uma produção que resgata a estética das antigas fitas VHS e oferece uma experiência bastante desconfortável para os fãs do gênero.
A história principal acompanha uma equipe da SWAT que invade um armazém aparentemente abandonado durante uma operação policial. No local, os agentes encontram corpos, ambientes sinistros e diversas televisões exibindo imagens perturbadoras. Enquanto avançam pelo prédio, descobrem fitas que revelam acontecimentos cada vez mais bizarros. Essa narrativa funciona como uma ligação entre os curtas e cria a sensação de que os policiais estão entrando em um pesadelo do qual talvez não consigam escapar.
O primeiro segmento, Storm Drain, acompanha uma jornalista que decide investigar uma lenda urbana sobre uma criatura conhecida como Homem-Rato, supostamente escondida nos esgotos da cidade. O que começa como uma reportagem aparentemente banal se transforma em um encontro aterrorizante com algo muito mais perigoso do que ela imaginava. Esse capítulo se destaca pela atmosfera claustrofóbica, pelos efeitos práticos e pela maneira como mistura humor estranho com horror corporal. É uma abertura eficiente, que apresenta rapidamente o tipo de experiência que o filme pretende oferecer.
Em The Empty Wake, uma jovem funcionária de uma funerária precisa passar a noite acompanhando um velório. O ambiente silencioso, a ausência de visitantes e os ruídos inexplicáveis criam uma tensão crescente. A proposta é relativamente simples, mas funciona justamente por explorar um medo bastante comum: a possibilidade de que algo aparentemente morto não esteja tão morto assim. A ambientação é um dos pontos fortes do segmento, que transforma um espaço cotidiano em um cenário de terror.
Já The Subject apresenta uma das histórias mais violentas e visualmente exageradas do longa. O curta acompanha experimentos científicos que tentam combinar organismos humanos com máquinas, criando seres grotescos e situações completamente fora de controle. Aqui, o filme abandona boa parte da sutileza e aposta em ação frenética, mutilações e criaturas perturbadoras. É um dos segmentos mais intensos, especialmente para quem aprecia o chamado body horror, embora seu excesso de violência possa afastar espectadores menos acostumados ao gênero.
O segmento Terror segue um grupo de extremistas que planeja realizar um ataque utilizando uma arma experimental. A situação rapidamente foge do controle, transformando os próprios integrantes do grupo em vítimas de uma ameaça que não conseguem compreender. Diferentemente dos outros curtas, esse capítulo trabalha com o fanatismo e a violência ideológica como ponto de partida, embora sua execução seja menos envolvente e seu impacto não seja tão consistente quanto o das melhores histórias da antologia.
A narrativa que conecta os segmentos, intitulada Holy Hell, merece atenção especial. A investigação da equipe da SWAT funciona como uma espécie de fio condutor, mantendo a sensação de mistério e ampliando gradualmente a dimensão dos acontecimentos. Embora nem todos os elementos sejam explicados de maneira clara, essa escolha combina com a proposta do filme: o desconhecido é parte fundamental do medo, e nem sempre precisamos compreender completamente aquilo que estamos vendo.
Um dos maiores acertos de V/H/S/94 é sua estética. A imagem granulada, as interferências, os ruídos e as imperfeições visuais ajudam a recriar a sensação de assistir a gravações antigas encontradas por acaso. O formato de found footage também aproxima o espectador dos acontecimentos, como se ele estivesse observando registros reais de situações horríveis. Essa abordagem dá ao filme uma identidade própria e reforça a atmosfera de desconforto.
Outro destaque é a variedade de estilos. Cada segmento apresenta uma proposta diferente, evitando que a experiência se torne inteiramente repetitiva. Há histórias que apostam mais na tensão e no suspense, enquanto outras preferem o grotesco, o absurdo e a violência explícita. Essa diversidade é uma das principais vantagens das antologias de terror, pois permite que diferentes tipos de medo sejam explorados em uma mesma produção.
Entretanto, essa estrutura também apresenta problemas. Como acontece em muitos filmes antológicos, a qualidade das histórias varia consideravelmente. Alguns segmentos desenvolvem suas ideias de maneira eficiente, enquanto outros parecem terminar antes de alcançar todo o seu potencial. Além disso, a violência gráfica é tão frequente em determinados momentos que pode acabar perdendo parte do impacto, especialmente para quem procura um terror mais psicológico e menos explícito.
Mesmo assim, V/H/S/94 consegue se destacar dentro da franquia por recuperar o espírito das fitas de terror dos anos 1990 e combinar nostalgia com ideias bastante perturbadoras. O filme não depende de uma única narrativa para funcionar: sua força está justamente na variedade de situações, criaturas e pesadelos que apresenta.
No fim, V/H/S/94 é uma boa escolha para quem gosta de terror antológico, gravações encontradas e histórias que apostam no grotesco. Embora alguns segmentos sejam mais interessantes do que outros, a produção entrega momentos de tensão, violência e criatividade suficientes para manter o interesse. Não é um filme indicado para quem prefere um terror delicado ou sutil, mas, para os fãs de horror extremo, representa uma experiência intensa e bastante desconfortável.
Mais do que contar uma única história, V/H/S/94 transforma uma coleção de gravações em uma sequência de pesadelos. E talvez seja justamente essa a sua maior qualidade: a sensação de que, ao apertar o botão de reprodução, nunca sabemos exatamente que tipo de horror está prestes a aparecer na tela.
NOTA: 7/10



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